Série Cartas - Mar de gente

Guarulhos, 23 de agosto de 2016

Mar de gente

Querida alma, bom dia, anseio teu sorriso e o cheiro do teu cabelo. 

Sobre a Rosa do pequeno príncipe, quando descobre que ela era uma entre muitas e que ainda assim era especial, me percebi num mar de gente. Chegando à um local de passantes, multidão, vejo uma pessoa reconhecivél. Em meio as ondas de pessoas indo, vindo e decidindo caminhos, é possível dar as mãos, cumprimentar - se e seguir.

Imaginei um pouco em devaneio, como um aeroporto. Tanta gente, alguém pergunta a outro: 'Quem você espera, como ele ou ela é?'. E pela resposta, vem o jogo de adivinhação: 'Tamanho, pele e outros detalhes, mas será que é isso?'

Minha descrição seria, alguma pessoa cujo sorriso me ilumina. Procuro alguém que no dia triste que tive certa vez me abraçou e disse como eu era importante. Esta pessoa que espero, pode até parecer com muita gente, mas para mim, só há ela no mundo.

Acho que foi o que o pequeno príncipe entendeu, sobre ele e o laço com sua rosa:

"Mas aconteceu que o pequeno príncipe, tendo andado muito pelas areias, pelas rochas e pela neve, descobriu, enfim, uma estrada. E as estradas vão todas em direção aos homens.
- Bom dia! - disse ele.
Era um jardim cheio de rosas.
- Bom dia! - disseram as rosas.
Ele as contemplou. Eram todas iguais à sua flor.
- Quem sois? - perguntou ele, espantado.
- Somos as rosas - responderam elas.
- Ah! - exclamou o principezinho...
E ele se sentiu extremamente infeliz. Sua flor lhe havia dito que ela era a única de sua espécie em todo o universo. E eis que havia cinco mil, iguaizinhas, num só jardim!
[...]
Depois, refletiu ainda: 'Eu me julgava rico por ter uma flor única, e possuo apenas uma rosa comum. [...]'
E, deitado na relva, ele chorou."

Depois de se encontrar com a raposa ele volta a se encontrar com as mesmas rosas, mas ele, o principezinho já é outro:

"O pequeno príncipe foi rever as rosas:
- Vós não sois absolutamente iguais à minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes ninguém. Sois como era minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu a tornei minha amiga. Agora ela é única no mundo.
E as rosas ficaram desapontadas.
- Sois belas, mas vazias - continuou ele. - Não se pode morrer por vós. Um passante qualquer sem dúvida pensaria que a minha rosa se parece covosco. Ela sozinha é, porém, mais importante que todas vós, pois foi ela que eu reguei. Foi ela que pus sob a redoma. Foi ela que abriguei com o para-vento. Foi por ela que eu matei as larvas (exceto duas ou três, por causa das borboletas). Foi ela que eu escutei se queixar ou se gabar, ou mesmo calar - se algumas vezes, já que ela é a minha rosa."
(Saint-Exupéry, Antoine de. O pequeno príncipe. Rio de Janeiro: Agir, 2009. p. 62, 64, 70) 

Assim termino mais este relato a ti. Sem entender ainda algumas questões, mas sabendo, com certeza que somos um do outro.

Até mais minha alma perfumada,

Seu,
Márcio Grou.

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