Série Cartas - A casa da avó

Guarulhos, 11 de novembro de 2016

A casa da avó

Querida alma, mais um olhar...

Ontem caminhava em direção ao metrô, conversando sobre família. Tão raro alguém comentar sobre estas relações mais próximas , que demorei a responder como era a minha.
Geralmente escuto perguntas sobre formação profissional e acadêmica. Ouvir sobre sua formação humana é raro. De onde vim? Qual a minha história?
Me senti preenchido, por estar num diálogo tão simples, mas enriquecedor.
E a conclusão que ouvi sobre como me relaciono foi: "Você é tipo a casa da vó".
Pedi uma explicação, foi a primeira vez que ouvi esta expressão. Pelo que absorvi é aquele que agrega os outros e acolhe. Adorei a resposta.

E é minha postura narrativa, a do GRANDE AVÔ. A imagem mítica de um ancião sentado em volta da fogueira, partilhando ensinamentos que sobrevivem desde antes dele e rumo a geração que virá. Viver é complexo. Existir, desafiador. O ancião já viveu um pouco mais e sabe que por imposição nada é realmente experimentado. Por isso, conta histórias. Deixa e acredita no coração daquele que escuta, a semente para o amanhã. Daquilo que precisa sobreviver: o humano. A construção mais delicada e sutil de todos os tempos.

Por isso ouvir é tão importante durante o ato de narrar. É única maneira que conheço de conhecer o mais próximo do que aquele que está ali, diante de mim, veio buscar. E quem sabe, por sorte, alcançar ao menos uma pergunta, suscitada ao calor da chama da vida partilhada. E come esta pergunta caminhar até uma próxima história.

Sem saber, aquele curto trajeto evocou partes esquecidas da minha alma adormecida.

Seu,

M.G.

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