Série Cartas - Loucos por gentileza


Guarulhos, 10 de novembro de 2016
Loucos por gentileza 
Veja só, querida alma:
Guarulhos. Em frente à Matriz. Estou onde hoje é o Armarinhos Fernando. Antes era um bingo. 
Ontem precisei ir ao centro resolver algo, que talvez pudesse ter sido adiado, mas saí.  Sem bolsa, o que é raro. Sem blusa ou casaco, mais raro ainda. Estava muito quente. Convite à chuva e ônibus lotado. Dito e feito. E lá estou ilhado no Armarinhos, Imaginando quando poderia ir embora.
As condições climáticas de ontem eram bem interessantes. A loja baixou as portas por conta da tempestade. O vento arrebatava o guarda chuva mais ousado e as pequenas coberturas das lojas eram pelo vento convidadas a dançar de maneira esfuziante.
Estar ali preso me permitiu ir olhando um pouco de tudo. E parece que também ser olhado pelos outros. Uma moça passa por mim, acompanhada de um rapaz de cabelo roxo, e diz como quem não quer ser ouvida, mas próximo o bastante para ser escutada: “Moço lindo você, adorei”. Retribui no mesmo tom discreto e semi-silencioso: “Obrigado”. Não sei bem o que deveria ter dito. Ela não me olhou diretamente, talvez eu estivesse no nível de admiração de algum tipo de caneta ou caderno de capa bonita, brilhante e ou inusitada. Só capa e nada mais.
Como o vento insistia em bailar com a chuva, deixando mais gente às portas da loja, do que propriamente dentro dela com seus produtos. Retorno para caminhar entre mais corredores, preparados com artigos de natal. A chuva ontem conseguiu vários espectadores. Menos eu. Eu também era espetáculo.
Corredor de rendas, bolinhas de gude e outros. Se aproxima uma senhora e entre outras palavras expressa: “Te achei muito lindo” –e continuou a detalhar seu encantamento – “Quando vejo algo bonito preciso dizer, tem quem diga que sou louca, mas adoro dizer coisas bonitas as pessoas”.
Em que momento da vida se tornou loucura dizer gentilezas aos demais seres? Ainda bem que escapei desta aula maluca.
Mal sabe ela que também quando posso, adoro revelar este segredo do meio-dia às pessoas: “Que são lindas e especiais”.

Até mais uma chuva melodiosa,
Seu poema,
M.G.

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